
Já um pouco afastada de
Ne change rien, começo a ver melhor uma teia que se insinua num plano recuado à música mas nada obscuro.
1. Na sua passagem por Los Angeles, Pedro Costa falou de dois planos de
Le petit théâtre de Jean Renoir : “It’s just two shots — one where she’s standing on a stage and you see her whole body, and the second half of the song is a close-up. And you see a lot of things — it’s amazing what you see in two shots.”
(Past, Moving Forward: The Little Theater of Pedro Costa). Ela é Jeanne Moreau e canta
Quand l'amour meurt; como Marlene Dietrich em
Morocco,
iluminada por Josef von Sternberg.
2. O libreto da ópera que Jeanne Balibar ensaia —
La Périchole, de Offenbach — , baseia-se na mesma peça de Mérimée —
Le carrosse du Saint-Sacrement —, que serviu de inspiração a Jean Renoir para
Le carrosse d'or, peça fundamental do jogo rivettiano
Va savoir, onde Balibar é uma outra
Camilla-actriz, desorientada com os seus quebrados amores num país estrangeiro.
Se é certo que é Pedro Costa quem faz essas ligações — e aqui sim, surge-me pela primeira vez, cheia de graça e vigor, a palavra
mise-en-scène —, não deixo de pensar que há eternamente na história da personagem de Camilla qualquer coisa de Balibar, ou vice-versa; qualquer coisa muito ténue mas verdadeira, uma afinidade de gestos, corpo e voz. E então, nesse encadeamento múltiplo fora de campo, quando Balibar se distrai do palco e do texto, percebo o que é uma actriz e quais são os seus poderes de representação do mundo.
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À atenção do Leandro: as próximas projecções de
Ne change rien estão marcadas para os dias 19 a 24, 29 e 30 Nov. e 01 e 02 Dez. 2009, às 21h30, no
Auditório de Serralves.