Sexta-feira, Novembro 20

La cultura dels kakis vermells





Manzan Benigaki (Le village des kakis rouges / Red Persimmons), Shinsuke Ogawa, Xiaolian Peng, 2001, 90', 16mm.

Shinsuke Ogawa és reconegut com un dels grans mestres del documental japonès. El 1974 es va instal·lar a Yamagata, i va basar el seu mètode en la immersió de l'equip en la comunitat rural, amb una concepció artesanal del cinema lliurada a la filmació de gestos i relats a punt de desaparèixer. Manzan Benigaki va ser el seu últim film, que va començar el 1984 i va acabar una jove col·laboradora xinesa el 2001.

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Ogawa Shinsuke é o realizador de Sen nen kizami no hidekei: Maginomura monogatari [A Aldeia de Magino: Um Conto], que passou recentemente na Cinemateca, integrado no programa de Ricardo Matos Cabo: Contar o Tempo (sessão 8).

Quinta-feira, Novembro 19

Gostar ou não gostar de dióspiros (uma amizade)


...Uma das coisas mais bonitas dos Outonos em Sacramento são as árvores de dióspiros espalhadas pelas ruas, pelos quintais. Podes esticar o braço, arrancar um e comê-lo logo ali.

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Otow Orchard is renowned for preserving the Japanese art of hoshigakihoshi means dried and gaki is from kaki, the Japanese word for persimmon.

Our fresh persimmons are dried each fall in a slow, patient, hands-on process that usually takes three to six weeks... per persimmon. Each persimmon is hand-peeled, strung onto a rack, and massaged every 3 to 5 days for several weeks. Weather conditions are watched carefully. The result is a transformation into a sugary delicacy that is tender and moist with concentrated persimmon flavor.

Se tivesse uma fotografia percebia-se melhor

Havia já algum tempo que Goetz Hebler se sentia vigiado. Voltando-se, quando caminhava pela rua, não avistava vivalma; mas tinha a certeza de que alguém o observava. Por vezes, ainda entrevia uma sombra, uma fugaz corrente de ar, um repentino movimento nas árvores. Olhava com mais atenção e… nada.
À noite, quando apagava a luz, a angústia espalhava-se como sangue no escuro. Era evidente que uns olhos odientos e maus o fitavam por detrás das sombras. Goetz cerrava os punhos, e mordia a língua. Levantava-se, passava água fria pela cara e não dormia. Não há palavras que descrevam o seu desespero. Se tivesse uma fotografia percebia-se melhor.
Foi quando imaginou uma solução engenhosa: comprou um cão. Um bicho enorme e destemido, que dava pelo nome de Donatello. “Mais vale um bom companheiro do que ter muito dinheiro”, pensou Goetz, que se sentia mais confiante. Tudo parecia então correr pelo melhor.
Ao fim de algum tempo, porém, o cão começou a cofiar os bigodes sem parar (era o seu tique de impaciência). Tinha a impressão de que algo muito negro se urdia nas suas costas. Para onde quer que fosse, acreditava estar a ser vigiado, talvez por outro cão, embora não farejasse nada num raio de vários quilómetros.
Com tudo isto, também Donatello se deixou afundar no medo. De rabo entre as pernas, tremia como varas verdes. Enfim, aquilo era mais forte do que ele. Foi quando imaginou uma solução engenhosa: fingindo um fanico, atirou-se para o chão e nunca mais se levantou. Vendo o exemplo do cão, Goetz Hebler fez o mesmo.

Quarta-feira, Novembro 18


He disappeared into Complete Silence, Plate 8, 1947 | Louise Bourgeois

A aranha sonâmbula

É uma aranha pequena, move-se muito devagar, de vez em quando pára — parece um asterisco riscado na parede. Agora está quase junto ao meu ombro.
Um projecto futuro de Ivo [Dimchev] é fazer uma performance com uma equipa internacional de críticos de teatro. Alguns deles dançarão, enquanto outros comentarão a dança e vice-versa, numa espécie de pesquisa sobre o corpo dos críticos e o seu interior constitutivo...

Aglika Stefanova, "O corpo como objecto de consumo".
Revista Sinais de Cena 10.
Há muitas histórias de bibliotecas, há as bibliotecas perdidas, como a de Alexandria, e há as bibliotecas em que se entra e se sai logo, porque se reconhece que só contêm histórias e ideias absurdas. Tal é a biblioteca de Saint-Victor onde entra Pantagruel, uns decénios antes de Quixote nascer, compraz-se com aquelas centenas de volumes que lhe prometem a sapiência dos séculos, mas pelo que sabemos bem depressa se põe a andar decidindo que tinha mais que fazer.

Umberto Eco, "Sobre literatura". Tradução de José Colaço Barreiros.

Terça-feira, Novembro 17

Donovan's Reef

Ao ver Donovan's Reef, percebo como John Ford se resguardou da arte ao dizer que fazia westerns. É o trabalho com os materais que conta — a forma de resolver os problemas, os acidentes de percurso; a arte como carreira ou inspiração é uma sensaboria de salão para preguiçosos e correctores da bolsa

Donovan's Reef é um filme fabuloso sobre o choque dos corpos (a pancadaria fraterna de Lee Marvin e John Wayne, a paixão tempestuosa e cómica de Wayne e Elizabeth Allen) e os movimentos da paisagem. Entre esses dois pontos — um tão pequeno, o outro tão grande e ambos tão desmesurados — traça-se a perspectiva mais inebriante que os nossos olhos podem percepcionar; como se a respiração fosse palpável, como se fosse possível compreender sem interpretar (o inexplicável).

E talvez seja esse rasto aéreo, mais do que a indiferença da natureza ou a filha que vai procurar o pai, que nos liga a Ozu.

Claro, Ford filmava westerns, mas o que nós vemos também é outra coisa.

Segunda-feira, Novembro 16

to come all the way from Japan

Anyway, he was explaining one day the meaning of a Chinese character — Yu, I believe it was — spending the whole time explaining it and yet its meaning as close as he could get to it in English was “unexplainable.”

Finally he laughed and then said, “Isn’t it strange that come all the way from Japan I spend my time explaining to you which is not to be explained?”


John Cage, indeterminacy #X7
Nunca escrevemos tão bem sobre nós próprios, como quando escrevemos sobre outros.

Luís Mourão.

Domingo, Novembro 15

Ponto morto

A minha primeira mulher
se divorciou do terceiro marido.
A minha segunda mulher
acabou casando com a melhor amiga dela.
A terceira (seria a quarta?)
detesta os filhos do meu primeiro casamento.
Estes, por sua vez, não suportam os filhos
do terceiro casamento da minha primeira mulher.
Confesso que guardo afeto pelas minhas ex-sogras.
Estava sozinho
quando um dos meus filhos acenou para mim no meio do engarrafamento.
A memória demorou para engatar o seu nome.
Por segundos, a vida parou, em ponto morto.

Augusto Massi.
Lee Marvin playing Tom Waits


and the King of United States of America

No maravilhoso Donovan's Reef (A Taberna do Irlandês), de John Ford.
Está demasiado vento e chuva para sair de casa, ainda não é hoje que vou buscar a antologia de Zbigniew Herbert ("Escolhido pelas estrelas", selecção e tradução de Jorge Sousa Braga, Assírio e Alvim). Mas isso não é razão para não me dedicar ao estudo dos objectos. Três pontos formam um triângulo.


Objects
Inanimate objects are always correct and cannot, unfortunately, be reproached with anything. I have never observed a chair shift from one foot to another, or a bed rear on its hind legs. And tables, even when they are tired, will not dare to bend their knees. I suspect that objects do this from pedagogical considerations, to reprove us constantly for our instability.


Still Life
Violently separated from life, these shapes were scattered on the table with deliberate carelessness: a fish, an apple, a handful of vegetables mixed with flowers. To this was added a dead leaf of light, and a small bird with a bleeding head. In its petrified claws the bird clenches a small planet of emptiness, and air taken away.


The most beautiful / is the object which does not exist...
«Forgive me, my Prince, but I’m afraid that Your Highness didn’t understand a piece entitled ‘A Study of the Object’. It’s not a denial of an existing matter at all. Treating faith as a subject of a prose of ‘savants’ is for me as disgusting as for the Prince. My poem describes an adventure of a reason which seeks purity by negation. It’s a mask-poem. In Your school, Your Highness, I had been learning this form and it’s unpleasant beyond words for me that Prince deigned to identify the voice of the poem with the author. Following Your Highness’s suit, I am also on the side of trees and whales. Constantly, although inefficiently, I was expressing in my pieces the faith in the concrete. Not as a materialist but as somebody who knows that only the full acceptance of the sensual world may lead to recognizing the Essence. Disgusting as the Greek under-world—full of wet shadows—is for me this little frenchman Mallarmé, who is justly named by Prince—I would say, a little bit in Russian style—a rabble.»
Carta de Zbigniew Herbert a Czesław Miłosz, Agosto de 1963

Sábado, Novembro 14

there's two kinds of blues, the happy blues and the sad blues

La mise-en-scène


Já um pouco afastada de Ne change rien, começo a ver melhor uma teia que se insinua num plano recuado à música mas nada obscuro.

1. Na sua passagem por Los Angeles, Pedro Costa falou de dois planos de Le petit théâtre de Jean Renoir : “It’s just two shots — one where she’s standing on a stage and you see her whole body, and the second half of the song is a close-up. And you see a lot of things — it’s amazing what you see in two shots.” (Past, Moving Forward: The Little Theater of Pedro Costa). Ela é Jeanne Moreau e canta Quand l'amour meurt; como Marlene Dietrich em Morocco, iluminada por Josef von Sternberg.

2. O libreto da ópera que Jeanne Balibar ensaia — La Périchole, de Offenbach — , baseia-se na mesma peça de Mérimée — Le carrosse du Saint-Sacrement —, que serviu de inspiração a Jean Renoir para Le carrosse d'or, peça fundamental do jogo rivettiano Va savoir, onde Balibar é uma outra Camilla-actriz, desorientada com os seus quebrados amores num país estrangeiro.

Se é certo que é Pedro Costa quem faz essas ligações — e aqui sim, surge-me pela primeira vez, cheia de graça e vigor, a palavra mise-en-scène —, não deixo de pensar que há eternamente na história da personagem de Camilla qualquer coisa de Balibar, ou vice-versa; qualquer coisa muito ténue mas verdadeira, uma afinidade de gestos, corpo e voz. E então, nesse encadeamento múltiplo fora de campo, quando Balibar se distrai do palco e do texto, percebo o que é uma actriz e quais são os seus poderes de representação do mundo.

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À atenção do Leandro: as próximas projecções de Ne change rien estão marcadas para os dias 19 a 24, 29 e 30 Nov. e 01 e 02 Dez. 2009, às 21h30, no Auditório de Serralves.

Sexta-feira, Novembro 13

até um suspiro se pode transformar num romance





Quinta-feira, Novembro 12

O avental de Martha

Não é todos os dias que um caçador encontra oportunidade tão sedutora

Volker saiu de casa com o propósito de caçar borboletas. Atravessou os prados, uma e outra vez. Não havia borboletas.
- Tarde demais, meu velho, tarde demais. A última borboleta tombou às mãos de um sueco de Kiruna – disse-lhe um astuto caçador de raposas que se escondera num buraco, sob as raízes frias de um enorme carvalho. Volker encolheu os ombros e regressou a casa.
Na manhã seguinte, decidiu dar caça aos estorninhos. Atravessou os bosques, um após outro. Mas os estorninhos tinham evaporado. Um caçador, que subira aos mais altos ramos de uma tília em busca de galinholas, informou-o que o último estorninho tinha acabado de voar para o prato de um outro sueco de Kiruna. Volker soltou um suspiro e retornou a casa.
No dia seguinte, saiu para caçar elefantes. Percorreu as longas savanas de um grande continente. Nem sinal de elefantes. Um caçador que andava por ali ergueu o indicador e disse-lhe que os de Kiruna tinham caçado todos os elefantes.
- Um espectáculo como nunca vi. Quanto mais penso nisso, mais a cabeça me anda à roda. Um jeu de massacre*. Os elefantes tombavam como moscas no fim do Verão. Não restou um único – disse o caçador. Desta vez, Volker fez o caminho de regresso com uma fúnebre solenidade.
Na manhã seguinte, saiu de casa para caçar flores. Havia flores por toda a parte. De todos os tamanhos, formas, cores. Não é todos os dias que um caçador encontra oportunidade tão sedutora. De olhos faiscando, empunhou a arma e lançou um fogo cerradíssimo. Porém, sem resultado. As flores são extraordinariamente rápidas e estão habituadas a lidar com a malícia e astúcia dos caçadores. Sem desistir, Volker correu durante dias no encalço de um ramo de lírios. Perdeu-se por entre os campos e, lamento dizê-lo, não mais encontrou o caminho de volta.

* É preciso notar que este caçador falava muito bem para um homem da sua condição.

Quarta-feira, Novembro 11

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Detalhe de uma contracapa escandalosamente furtada a este livreiro.

Terça-feira, Novembro 10

"What is it you want me to talk about?"

"Yourself."

"No, no. It's got to be something more stimulating than that. Ask me what I think about Shakespeare. Go on. I'm in the attitude."

Entrevista com O. Henry.

Segunda-feira, Novembro 9

Vaguear entre os ventos



Quando dispara nos olhos do índio morto, Ethan diz ao Reverendo: um comanche acredita que sem olhos não pode entrar na terra dos Espíritos. Vagueará para sempre entre os ventos.
“O poço”, publicado às vésperas da Segunda Guerra, quando o autor tinha 30 anos, é a estreia literária de Onetti. É o relato em primeira pessoa de Eladio Linacero, um homem que, aos 40 anos, sozinho e sem tabaco, trancado em sua casa suja, resolve escrever a história de sua vida, apesar de não ter muito o que contar. O poço é a história desta escrita e da impossibilidade de uma transcendência através do verbo. Diante da dificuldade de contar uma vida mal vivida, Linacero recorre a outra instância, a dos sonhos, como uma fonte de relatos dignos de narração. O projeto do narrador-escritor, exposto nas primeiras linhas da novela, é alternar o relato de um acontecimento vivido e de um sonho, “Ficaríamos todos contentes”, diz ele em sua ironia proto-existencialista.

Wilson Alves-Bezerra a propósito da edição no Brasil de "O poço" e "Para uma tumba sem nome", de Juan Carlos Onetti.

Domingo, Novembro 8

O plano

Permitam-me, deixem-me que apresente Maslav Daslov*. Um obscuro funcionário de uma repartição ministerial. Vinte anos de serviço, nenhuma promoção, nenhum êxito digno de nota. Calvo, baixo, seco e infeliz. Fato cinzento, peúgas passajadas, vida cinzenta, futuro irremediavelmente cinzento.
Uma noite, meteu-se-lhe na cabeça que queria mudar de vida. Não podia suportar, por mais tempo, a sua desbotada existência. Decidiu tomar uma atitude radical e, com uma luzinha nos olhos, pensou num grandioso plano. Ora, o plano era a tal ponto brilhante que todo o sangue do coração lhe subiu à cabeça e um suor frio deslizou pela testa.
Assim, na manhã seguinte, entrou na repartição e desatou a morder os colegas, um após outro. Fincou os dentes nos braços das telefonistas, nas pernas das secretárias, nas orelhas dos contabilistas, nos pés dos assessores, nos pescoços dos porta-vozes, nas costas dos relações públicas e assim por diante, acompanhando cada mordedura com terríveis e agudíssimos uivos. Mas Daslov não se limitou aos níveis inferiores da hierarquia: também mordeu o chefe de secção no nariz e deixou dois dentes pregados na canela do director. Estava lançado. Finalmente encontrara a sua vocação e um modo de vida bem sucedido.
Os resultados do plano superaram de longe as melhores expectativas. Ao fim de um dia, tinha mordido todos os colegas, era o funcionário mais respeitado da repartição e a sua fama galgara já as mais imprevisíveis barreiras. As altas chefias desceram dos largos gabinetes para o felicitar com um sorriso do canto direito ao canto esquerdo da boca. Foi imediatamente promovido e recebeu ainda uma gordíssima bonificação.
Mas não terminou aí, como é fácil de imaginar, a história de Maslav Daslov.

* Há neste nome e apelido um efeito pouco eufónico produzido pela repetição do “as”, e pela semelhança entre “lav” e “lov”, que os tornam a ambos um tanto ou quanto desagradáveis. Infelizmente, não há nada que se possa fazer quanto a isso.

Tiras oscilantes de lã

A saída da opacidade profana, a intensificação da vida seja em que direcção for, honra ou morte, vitória ou sacrifício, núpcias ou súplica, iniciação ou posse, purificação ou luto, em direcção a tudo o que perturba e exige um significado, era assinalado entre os Gregos com a aparição de tiras oscilantes de lã; brancas ou vermelhas, na maioria dos casos, enroladas à cabeça, nos braços, a um ramo, a uma proa, a uma estátua, a um machado, a uma pedra, a uma trípode. O olhar moderno encontra-as em toda a parte, nos fragmentos sobreviventes, e não as vê, afasta-as do centro da atenção como pormenores decorativos insignificantes. Para o olhar grego eram o oposto: eram esses pedaços leves e móveis que geravam o significado, o delimitavam, o celebravam. Tudo o que acontecia na macia moldura das tiras de lã era diferente e separado do resto. O que anunciavam essas tiras, essas fitas? Um excedente, um rasto flutuante que se acrescentava a um ser ou a uma coisa. E, ao mesmo tempo, um laço que ligava esse ser ou coisa.

As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 275

Sábado, Novembro 7


A sombra do gato às quatro da tarde.

Quando Perséfone se sentou no trono de Hades,

e o seu rosto perfumado aparecia por detrás da barba pontiaguda do esposo, quando Perséfone provou a romã que crescera nos jardins tenebrosos, a morte sofreu uma mudança não menos grave do que a que sofrera a vida desde que fora roubada à donzela. Os dois reinos estavam desequilibrados e cada um se expandia em direcção ao outro. Hades impunha a ausência à face da terra, impunha que qualquer presença fosse envolta num manto muito mais amplo de ausência. No meio dos mortos, Perséfone impunha o sangue: mas já não o sangue negro dos sacrifícios, já não o sangue que os mortos bebem avidamente. Era o sangue invisível que continuava a pulsar nos seus braços brancos, o sangue de quem continua a estar plenamente vivo, mesmo no palácio da morte.

As Núpcias de Cadmo e Harmonia, de Roberto Calasso,
tradução de Maria Jorge Vilar de Figueiredo, Cotovia, 1990, p. 209